Rede SACI: Solidariedade, Apoio, Comunicação e Informação Com um Cego no Avião.

Lista Cegos
10/01/2005

Crônica sobre o professor Edison Ribeiro Lemos.

Affonso Romano de Sant'Anna.

No avião, sentei-me ao lado de um cego. Fiquei um pouco ressabiado, porque pensei que ia acabar tendo que participar de suas possíveis dificuldades para interagir com aquele ambiente. Equivoquei-me. Ele lá estava tranqüilo, na sua. Comecei a conversar com ele somente quando a aeromoça começou a servir o lanche. Primeiro fiquei observando como ele se comportaria. A aeromoça, veio com o carrinho servindo a um e a outro e quando chegou a vez dele, ela pôs a bandeja na sua frente e explicou-lhe tomando sua mão: "Aqui a salada". Pegou a outra mão: "Aqui a carne". Pegou de novo a primeira mão: "Aqui a sobremesa". Eu, reparando. Dito isto, ela foi se afastando. O cego virando a cabeça, antes que ela se afastasse de todo, perguntou-lhe: Mas qual é a comida? Murmurei para ele: "Esta é que é a informação fundamental". E era. Mais do que saber sumariamente onde estavam as coisas, o importante era preparar seu paladar, pois podia se dar que o cego nem gostasse de um daqueles pratos. A aeromoça era gentil, mas não se havia dado conta do tipo de atenção que tinha que dar ao cego. E aí eu já estava conversando com o vizinho. Chamava-se Edson Ribeiro Lemos, é professor, mora em Niterói e estava numa comitiva de meia dúzia de cegos que iam ao Chile para um congresso internacional sobre os problemas específicos que os afetam. Quando chegou a hora do cafezinho a aeromoça passou de novo e colocou uma xícara na mão do cego. E ele, com aquele sorriso de bondade, que só os cegos têm, disse-me confidencial e ternamente: - Ela não foi treinada para isto, foi gentil, mas me serviu a xícara com a asa ao contrário em minha mão. E assim íamos falando. Quando me disse seu nome e eu lhe disse o meu, seu rosto abriu-se fraternalmente e se indagou: Como é que não reconheci sua voz? Eu o ouço sempre na televisão. E referiu-se também à Marina, sabia de nossa viagem à Moscou, da Biblioteca Nacional etc. Cego, mas acompanhava as coisas. Até as ínfimas como eu. Curioso, indago sobre a sua cegueira. É sempre uma situação constrangedora. A pessoa pode pensar em perguntar, mas teme, por pura delicadeza... Achei que ser franco, manter uma conversa direta era a melhor forma de colocá-lo à vontade, ele que tão à vontade já estava antes. Veio-lhe a cegueira aos treze anos, um glaucoma. Antes, aos dez anos, ao dar uma cambalhota na praia de Icaraí, o nervo ótico foi comprimido e houve um deslocamento da retina. Quando levantou-se da cambalhota só via o sol pelo canto do olho, uma mancha amarela. Perguntei-lhe sobre os sonhos de um cego. O que vê, quando sonha? Um dia antes, minha mulher havia lido um artigo onde havia uma revelação: quando se sonha e as cenas aparecem tão visíveis, é porque o nervo ótico está sendo acionado. De tal modo que a gente imagina que está vendo as coisas, e está mesmo. - Com o cego é diferente, me diz Edson. Devo confessar que quanto mais o tempo passa, mesmo a pessoa que ficou cega depois de adulta, vai vendo as coisas cada vez mais sombreadas. E isto vai se modificando até que vira uma lembrança meio escura, na neblina. - Das coisas que vi, guardei as cores; mas mesmo essas esmaeceram. Da minha casa tenho duas lembranças: a da infância, com mais claridade. Aí vejo as coisas, os objetos ainda. Mas minha casa de adulto, onde sei perfeitamente onde tudo está e como me locomover lá dentro, esta está na meia luz, na penumbra. - Este avião aqui, por exemplo: me situo perfeitamente aqui dentro, controlo o que está ao redor, mas as coisas estão na penumbra. Disse-me algo mais que não sabia. Que um pesquisador americano havia concluído que a cegueira é colorida. Ele tem perguntado sobre isto a outros cegos, mas não confirmam: O seu não-ver é amarelo. Há uma mancha amarela sempre à sua frente. Mas quando se emociona ou se irrita a mancha fica vermelha. - Será que há cegos daltônicos, pergunto-lhe, eu que sou daltônico confesso e cego para tantas coisas. Rimos. Falo-lhe de Marco Antônio Queiroz, cujo livro "Sopro no corpo", da editora Rocco, narra como ele, jovem da zona sul que vivia uma típica e agitada vida de adolescente acabou cego por causa da diabetes. Edson conhecia o livro, a história de Marco Antônio, sabia de tudo. Lá pelas tantas me perguntou: - Vamos passar pelos Andes? - Vamos, respondi, pensando se poderia explicar-lhe como eram as montanhas de neve. Ele ficou cego na adolescência e poderia ter essa imagem na memória. E assim ia a conversa. Falou-me ainda de sua família: a mulher que enxerga, as três filhas e as netas. Leva uma vida a mais normal possível. Quando passamos pelos Andes, ele dormia ao meu lado. Eu olhava a neve. Como descrevê-la? O avião seguia. E eu olhava a neve.

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