Aspectos-chave para a inovação na sala de aula

 

Espaço Acadêmico, nº. 62, julho de 2006.

RODRIGO MOURA LIMA DE ARAGÃO

 

Inovação é um tema complexo e multifacetado. Perspectivas diversas cercam o tópico, apresentando-o, por exemplo, como uma necessidade e desafio (ALENCAR, 1995) ou como a introdução de novidades materializadas em produtos, processos e serviços (BARBIERI, 1997). Todas as abordagens existentes compõem, na realidade, um conjunto heterogêneo, que possibilita somente concluir o quão vária pode ser a leitura do conceito inovação. Quando se pensa em sala de aula, entretanto, o que se entende pelo termo e como se dá a sua realização? O contexto corresponde ao de uma prestação de serviços, porém, tratam-se de produtos com características próprias que exigem um panorama específico. É um ambiente de formação, de troca de experiências, de aprendizado mútuo e que, a princípio, não busca a maximização dos resultados financeiros, mas, sim, o desempenho maximizado dos alunos envolvidos.

Na sala de aula, então, quem inova: o professor ou a instituição de ensino? Não tenho dúvidas de que é a escola ou a universidade que apresenta possibilidades mais amplas de desenvolver inovações. Tomando-se o conceito de inovação de deep capability, de Hamel (2003), apenas a instituição de ensino poderia promover inovações maiores, capazes de resultar em um crescimento significativo ou, até mesmo, na criação de novos mercados. Se a inovação não se limita ao produto e deve servir como uma orientação para todo o negócio, é a universidade que pode construir sua imagem de forma inovadora, que pode conduzir pesquisas sob processos inovadores ou, ainda, que pode gerenciar seu caixa sob um paradigma inovador. O âmbito de atuação do docente, nesse contexto, é muito mais restrito, estando vinculado, mormente, à inovação de produtos.

Não basta, porém, ser uma pessoa criativa para inovar na sala de aula. Para que um professor pratique a inovação no ambiente educacional, é preciso que haja uma situação que provoque essa prática. Não se pode desvincular o conceito de e a prática da inovação do contexto que a estimula. Se os resultados são iguais ou superiores àqueles esperados, não há razão para realizar mudanças nas estratégias empregadas na sala de aula. Por outro lado, se as respostas aos esforços empreendidos situam-se aquém de um desempenho satisfatório, tem-se uma situação-problema cuja solução criativa e bem-sucedida consiste, afinal, na inovação na sala de aula.

O docente, entretanto, antes de inovar, deve analisar alguns aspectos-chave, cuja ponderação é necessária para uma inovação bem-sucedida. Toda atividade implica planejamento e execução, e o professor, na sala de aula, precisa pensar estrategicamente, deve analisar fatores diversos, a fim de traçar os melhores trajetos para atingir os objetivos de aprendizagem propostos. Aspectos que devem ser considerados pelo docente, a priori, para inovar, são: necessidades e possibilidades dos alunos; recursos do professor; infra-estrutura da instituição de ensino; conteúdo a ser desenvolvido e objetivos de aprendizagem; cultura educacional.

A inovação na sala de aula é, pois, uma resposta criativa e bem-sucedida a uma situação-problema. O seu ponto de partida deve ser, portanto, o corpo discente, suas necessidades e possibilidades. Um bom começo é perguntar para os alunos qual atividade profissional exercem, quais são os seus objetivos de carreira e quais as suas expectativas com relação ao curso que freqüentarão. Eles sabem todas as respostas? Não, mas é esse o ponto de partida. O retorno que dão contribui para a construção de um retrato da turma, com esboços de suas necessidades e possibilidades. Antes de tentar qualquer coisa diferente na sala de aula, o docente precisa saber primeiro se essa ação e se seus possíveis resultados podem, de fato, proporcionar aos alunos algo que lhes seja útil em seus cotidianos de trabalho, que satisfaça parte das necessidades que possuem.

Além disso, para inovar, é fundamental conhecer as possibilidades dos alunos, consistindo estas em aspecto balizador do trabalho do professor. A aceitação de e a adesão a uma nova proposta de curso dependerão daquilo que os discentes têm condições de realizar. Caso a proposta exija, por exemplo, esforços adicionais extra-classe, ignorar esse fator pode ter como conseqüência desempenhos insatisfatórios dos alunos. Isso é bastante verdade, por exemplo, nos cursos técnicos noturnos – nos quais já lecionei. Com aulas de segunda a sexta, os alunos matriculados vêm, em sua maioria, direto do trabalho para a escola, sendo que a leitura de capítulos de livros está fora de suas possibilidades. Isso decorre, primeiro, do tempo que dispõem os discentes; segundo da impossibilidade de adquirir tais livros, geralmente caros, analisando-se o poder de compra convencional do brasileiro.

Não adianta, no entanto, pensar apenas nas possibilidades e necessidades dos alunos. O professor deve ponderar, também, os recursos que ele próprio dispõe, entre os quais, destacam-se os recursos financeiros, temporais e materiais. Há alternativas metodológicas disponíveis nas literaturas nacional e estrangeira? Provavelmente. Contudo, tem o docente condições de adquirir essas obras? Caso adquira, terá ele tempo para analisar as propostas apresentadas pelos autores? Em 2004, foi elaborado um projeto para a ong Grupo Humanista Educação Além da Escola voltado para a inovação na sala de aula, o Laboratório de Inovação Pedagógica. A idéia básica era abrir um espaço para experimentar e analisar estratégias de ensino diferentes daquelas empregadas nas atividades do cursinho pré-vestibulinho dessa ong. O projeto foi bem aceito pela coordenação, entretanto, o corpo docente – inclusive eu – não dispôs de tempo para executá-lo. Muitas vezes, é melhor centrar-se em pequenas inovações factíveis, do que em inovações maiores que estão além das possibilidades do professor. Ainda, também são importantes os recursos materiais, ou seja, tudo aquilo que o docente possui para preparar suas aulas, como os livros que dispõe, computadores, vídeos, DVDs e CDs. Uma aula que tenha como eixo uma apresentação em Power Point pode ser inovadora, mas, para prepará-la, o professor precisa tanto do hardware, quanto do software e de um mínimo de conhecimento para operar ambos. O docente deve conhecer e estudar também as suas possibilidades para inovar.

Outro aspecto-chave para a inovação na sala de aula é a infra-estrutura da instituição de ensino. Quais os recursos disponíveis na sala de aula? Giz e lousa, apenas? Retro-projetor, projetor de slides, vídeo? Data Show e aparelho de som? Quantas carteiras existem na sala de aula e qual a sua disposição? Parece-me claro que a melhor disposição das carteiras é aquela que se assemelha a um U. Se são feitas fileiras, o ruído na comunicação professor-aluno é muito grande e as chances de dispersão são muito maiores do que na outra forma de disposição. Em U, os alunos visualizam melhor o docente e a lousa (ou lona), estando mais aptos a manter o foco. Em uma escola tradicional, a disposição em U é uma inovação, porque contribui para melhores resultados de aprendizado. Contudo, em escolas onde lecionei, havia muitas carteiras dentro da sala, carteiras pesadas, de difícil locomoção, o que impossibilitava a formação em U, sendo esse um exemplo de quando a infra-estrutura da escola limita as possibilidades de inovação.

A fim de inovar, devem ser ponderados também o conteúdo a ser desenvolvido e os objetivos de aprendizagem da disciplina. Objetivos diferentes exigem estratégias diversas; conteúdos distintos também. O uso de técnicas de contar histórias pode ser bastante produtivo e inovador para o desenvolvimento de disciplinas como História, por exemplo, no entanto, sua aplicabilidade seria interessante para Matemática? Provavelmente não. O professor precisa estar também atento a este ponto para inovar. Onde os meus alunos devem chegar? O recurso que estou propondo é adequado aos objetivos de aprendizagem estabelecidos e à matéria que será trabalhada? Essa análise é fundamental para a formulação e implementação de respostas não apenas criativas, mas, sobretudo, bem-sucedidas para as questões que surgem no cotidiano da sala de aula.

Por último, cabe ao docente analisar a cultura educacional pré-existente, entendendo-se aqui por cultura educacional o conjunto de hábitos e comportamentos já sedimentados em determinada instituição de ensino, região ou país. No Brasil, por exemplo, parece-me que ainda é hegemônico nas escolas um papel de aprendizado passivo. O aluno assume um comportamento apático e não pró-ativo, espera receber o conteúdo do professor e não questiona, não critica. Para implementar estratégias de ensino inovadoras, nesse contexto, o professor deve contagiar os alunos com suas idéias, a fim de provocar uma ruptura no comportamento habitual dos discentes. Quando comecei a lecionar marketing na ETE Albert Einstein, por exemplo, os alunos não aceitaram a proposta de que eles deveriam construir o conteúdo, e não eu entregá-lo. As suas experiências anteriores de aprendizado situavam-se sob a cultura educacional brasileira tradicional, na qual a aula expositiva pura é o método mais empregado. O professor, portanto, tem que pensar nestas questões: quais são os hábitos já sedimentados dos alunos na sala de aula e quais mudanças serão necessárias para que seja bem-sucedida a inovação proposta? Não se deve poupar tempo para explicar como funcionará a dinâmica das aulas e qual o comportamento esperado dos alunos. É preciso levar em consideração os padrões de ensino do país e da escola, a fim de obter sucesso nas inovações pretendidas.

 

por: RODRIGO MOURA LIMA DE ARAGÃO

 

Fonte: Espaço Acadêmico, nº. 62, julho de 2006.

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